24 DE MARÇO, 32 ANOS DA PÁSCOA DEFINITIVA
DE DOM OSCAR ROMERO
Um grupo de bispos
latino-americanos, no dia 29 de março de 1980, às vésperas dos funerais de dom
Romero, assinou um documento que dizia: “Três coisas admiramos e agradecemos no
episcopado de dom Oscar A. Romero: foi, em primeiro lugar, anunciador da fé e
mestre da verdade [...]. Foi, em segundo lugar, um resoluto defensor da justiça
[...]. Em terceiro lugar, foi o amigo, o irmão, o defensor dos pobres e
oprimidos, dos camponeses, dos operários, dos que vivem nos bairros
marginalizados”.
Dom Romero foi um bispo
exemplar, porque foi um bispo dos pobres em um continente que carrega tão
cruelmente a marca da pobreza das grandes maiorias, enxertou-se entre eles,
defendeu sua causa e sofreu a mesma sorte deles: a perseguição e o martírio.
Dom Romero é o símbolo de toda uma Igreja e de um continente latino-americanos,
verdadeiro servo sofredor de Yahwé, que carrega o pecado, a injustiça e a morte
de nosso continente. Embora, às vezes, o pressentíamos, seu assassinato não nos
surpreendeu; seu destino não podia ser outro, pois ele foi fiel a Jesus e se
inseriu de verdade na dor de nossos povos.
Porém, sabemos que a morte de
dom Romero não foi um fato isolado. Fez parte do testemunho de uma Igreja que,
tanto em Medellín, como em Puebla, optou, a partir do Evangelho, pelos pobres e
oprimidos. Por isso, agora compreendemos melhor, desde seu martírio, a morte
por fome e doença, realidades permanentes em nossos povos; assim como os
incontáveis martírios, as incontáveis cruzes que pontuam nosso continente
nestes anos: camponeses, moradores das periferias, operários, estudantes,
sacerdotes, agentes de pastoral, religiosas, bispos encarcerados, torturados,
assassinados por crerem em
Jesus Cristo e amarem os pobres.
São, como a morte de Jesus,
fruto da injustiça dos homens e, ao mesmo tempo, semente da ressurreição [...].
Dom Oscar A. “Romero é um mártir da libertação que o Evangelho exige, um
exemplo vivo do pastor que Puebla queria”. Dom Romero, que assistiu em 1979 à
Conferência Geral dos Bispos Latino-americanos em Puebla, identificou-se
plenamente com o apelo dos bispos à “conversão de toda a Igreja para uma opção
preferencial pelos pobres, no intuito de sua integral libertação” (Puebla
1134). Assim, ele leu, com toda clareza, num país esgarrado pela violência, “a
testemunha subversiva das Bem-aventuranças que revolveram tudo” e entendeu que
tinha de desarraigar a violência a partir de suas bases, a violência
estrutural, a injustiça social. E, por isso, é dever da Igreja “conhecer os
mecanismos da pobreza”.
A
opção preferencial pelos pobres é um convite para a Igreja como um todo e para
cada seguidor de Cristo. “O cristão, se não viver este compromisso de
solidariedade com o pobre, não é digno de chamar-se cristão”, ele dizia. E
continuava: “Por isso, os pobres marcaram o verdadeiro caminho da Igreja. Uma
Igreja que não se une aos pobres para denunciar, a partir deles, as injustiças
que se cometem contra eles, não é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo”
(Homilia, 23 de setembro de 1979).
Duas
semanas antes de sua morte, numa entrevista a um jornal do México, Dom Oscar
Romero disse: “Fui freqüentemente ameaçado de morte. Devo dizer-lhe que, como
cristão, não creio na morte sem ressurreição: se me matarem, ressuscitarei no
povo salvadorenho. Digo isso sem nenhum
ostentação, com a maior humildade. Como pastor, sou obrigado, por mandado
divino, a dar a vida por aqueles que amo, que são todos os salvadorenhos, até
por aqueles que me assassinarem. Se chegarem a cumprir-se as ameaças, desde
agora ofereço a Deus meu sangue pela redenção e ressurreição de El Salvador. O
martírio é uma graça de Deus, que não me sinto na situação de merecer, porém,
se Deus aceitar o sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de
liberdade e sinal de que a esperança se transformará logo em realidade. Minha
morte, se for aceita por Deus, que seja pela libertação do meu povo e como
testemunho de esperança no futuro. Você pode escrever: se
chegarem a me matar, desde já eu perdôo e abençôo aquele que o fizer”.
Na segunda-feira de 24 de março
de 1980, o arcebispo Oscar Arnulfo Romero foi assassinado a tiros enquanto
celebrava a missa na capela da Divina Providência do hospital oncológico de San
Salvador.
Algumas Frases de Dom Oscar
Romero:
“Irmãos, como gostaria de gravar no coração de cada um esta grande
idéia: o cristianismo não é um conjunto de verdades que se deve crer, de leis
que temos que cumprir, de proibições! Isto se torna repugnante! O cristianismo
é uma pessoa, que me ama tanto, e que reclama meu amor. O cristianismo é
Cristo”. (06 de novembro de 1977).
“Rezo ao Espírito Santo, para que me faça caminhar nas estradas da
verdade e me mantenha sempre guiado unicamente por Nosso Senhor; jamais pelos
elogios, nem pelo temor de ofender” (13/03/80).
“Entreguei tudo nas mãos de Deus, dizendo-lhe que procurei fazer toda a
minha parte e que, apesar de tudo, amo a Santa Igreja e, com a sua ajuda, serei
sempre fiel à Santa Sé, ao magistério do Papa. Todavia compreendo a parte
humana, limitada, defeituosa da Igreja – que é o instrumento de salvação da
humanidade – à qual quero servir sem reserva alguma” (04/05/79)
“Como Cristo, a Igreja deve continuar a denunciar os pecados
dos nossos dias, deve denunciar o egoísmo, que se esconde no coração de todos
os homens, o pecado que torna as pessoas desumanas, que desagrega as famílias,
que converte ao dinheiro, às posses, ao lucro e a poder como único fim do
homem. – Quando a Igreja escuta o grito dos oprimidos o mínimo que deve fazer é
denunciar os organismos e os elementos sociais que causam e perpetuam a pobreza
da qual surge o grito de ajuda. – Porém, assim como Cristo nos ensinou, a
denúncia da Igreja não se inspira no ódio nem no ressentimento, mas aponta para
a conversão dos corações e à salvação de todos” (Segunda Carta Pastoral, agosto
1977)
“Uma religião de missa dominical, mas de semana injusta, não
agrada ao Senhor. Uma religião de muitas rezas e tantas hipocrisias no coração,
não é cristã. Uma Igreja que se instala só para estar bem, para ter muito
dinheiro, muita comodidade, mas que se esquece do clamor das injustiças, não é
verdadeiramente a Igreja de nosso divino Redentor”. (04 de dezembro de 1977).
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